Filtro da Natureza: Como as Sementes de Moringa Podem Substituir Produtos Químicos na Purificação de Água

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A poluição por microplásticos tornou-se uma crise ambiental global, com minúsculas partículas de plástico que se infiltram nos abastecimentos de água e representam riscos significativos para a saúde. Embora as estações de tratamento de água tradicionais dependam fortemente de coagulantes químicos para remover estes poluentes, novas pesquisas sugerem que uma planta tropical comum pode oferecer uma alternativa mais limpa e sustentável.

Pesquisadores do Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade Estadual Paulista (ICT-UNESP) descobriram que extratos da semente de Moringa oleifera podem remover eficazmente microplásticos da água, com desempenho tão bom quanto – e às vezes melhor que – produtos químicos industriais padrão.

A Ciência da Coagulação: Neutralizando o Invisível

Para entender por que esta descoberta é importante, é preciso entender como os microplásticos se comportam na água. A maioria das partículas microplásticas carrega uma carga elétrica negativa. Porque cargas semelhantes se repelem, essas minúsculas partículas ricocheteiam umas nas outras e resistem a serem capturadas pelos filtros de areia tradicionais.

Para resolver isso, as estações de tratamento de água usam um processo chamado coagulação :
1. Um coagulante é adicionado à água para neutralizar a carga elétrica das partículas.
2. Uma vez neutralizadas, as partículas não se repelem mais; em vez disso, eles começam a ficar juntos.
3. Esses aglomerados, conhecidos como “flocos”, tornam-se grandes o suficiente para serem capturados por sistemas de filtragem padrão, como filtros de areia.

Tradicionalmente, o sulfato de alumínio (alúmen) tem sido o padrão da indústria para esse processo. No entanto, o estudo da UNESP descobriu que o extrato salino das sementes de Moringa tem desempenho semelhante ao do alume. Na verdade, em condições de água mais alcalinas, o extrato de Moringa superou a alternativa química.

Por que a Moringa é uma virada de jogo

A mudança para coagulantes à base de plantas é impulsionada por várias desvantagens críticas associadas aos métodos químicos atuais:

  • Toxicidade e Resíduos: Coagulantes à base de alumínio e ferro não são biodegradáveis. Eles podem deixar toxicidade residual na água tratada, levantando problemas de saúde a longo prazo.
  • Problemas de matéria orgânica: O uso de sulfato de alumínio pode aumentar a matéria orgânica dissolvida na água, o que muitas vezes requer etapas de tratamento adicionais e caras para ser removida.
  • Sustentabilidade: Moringa é uma planta altamente nutritiva nativa de regiões tropicais. Suas sementes são biodegradáveis ​​e oferecem um recurso renovável para purificação.

Testes contra poluentes de alto risco

Para garantir a eficácia do método, a equipe de pesquisa mirou especificamente nos microplásticos policloreto de vinila (PVC). O PVC é um dos poluentes mais preocupantes devido às suas conhecidas propriedades mutagénicas e cancerígenas.

Os pesquisadores usaram um protocolo de teste rigoroso:
Envelhecimento Simulado: Eles expuseram o PVC à radiação ultravioleta (UV) para imitar como o plástico se degrada na natureza.
Medição de precisão: Usando microscopia eletrônica de varredura (MEV) e câmeras a laser de alta velocidade, eles confirmaram que o extrato de Moringa agrupou e removeu com sucesso essas partículas perigosas.
Aplicação no mundo real: A equipe já começou a testar o extrato na água do Rio Paraíba do Sul, uma importante fonte de água no Brasil, com resultados promissores.

Uma solução para comunidades de pequena escala

Embora a transição de plantas municipais de grande escala possa levar algum tempo, esta tecnologia possui um imenso potencial para propriedades rurais e pequenas comunidades. Dado que as sementes de Moringa podem ser processadas facilmente – e até o extrato pode ser preparado em casa – proporciona uma forma económica e acessível de garantir água potável segura em áreas sem infraestruturas avançadas.

“Há um crescente escrutínio regulatório e preocupações de saúde em relação ao uso de coagulantes à base de alumínio e ferro… Por esse motivo, a busca por alternativas sustentáveis ​​se intensificou.” — Adriano Gonçalves dos Reis, professor de TIC-UNESP


Conclusão
Ao aproveitar as propriedades naturais da Moringa oleifera, os investigadores identificaram uma forma de combater a contaminação por microplásticos utilizando um método biodegradável, eficiente e de baixo custo. Este avanço oferece um caminho promissor para uma água potável mais segura e uma redução na pegada química do tratamento global da água.